190 anos e 24 vozes: como as mulheres estão reescrevendo a história da Assembleia Legislativa do Piauí

190 anos e 24 vozes: como as mulheres estão reescrevendo a história da Assembleia Legislativa do Piauí

Durante quase dois séculos de existência, a Assembleia Legislativa do Piauí tem sido palco de mudanças profundas e, nos últimos anos, uma das mais significativas é o fortalecimento da presença e das pautas das mulheres. Se antes eram raras as vozes femininas nos microfones do plenário, hoje elas têm existido, mesmo que em números menores em comparação a quantidade de deputados homens, em novas formas de atuação, aprovando leis, exercendo direitos e abrindo caminhos para as mulheres piauienses.

A composição atual total da Casa é de 30 deputados estaduais, quatro cadeiras são ocupadas por mulheres e 26 cadeiras são ocupadas por homens. Ao longo de 190 anos de história, apenas 24 mulheres conquistaram mandato parlamentar no Piauí, dessas 24 mulheres, apenas uma mulher negra foi eleita em todos esses anos, e se tornou o maior símbolo de liderança política no estado: Francisca Trindade, deputada estadual e federal que se tornou ícone da representatividade feminina e negra. Sua trajetória inspirou gerações, ao mostrar que a política pode, e deve, ser um espaço plural, sensível e voltado à justiça social.

Francisca Trindade – Foto: Reprodução ALEPI

Francisca das Chagas da Trindade foi uma das figuras mais marcantes da política piauiense. Primeira mulher negra eleita deputada estadual e depois federal pelo Piauí, ela dedicou sua vida à defesa das populações mais vulneráveis, às políticas de habitação e à ampliação dos direitos das mulheres. Sua atuação abriu portas e lançou luz sobre a importância da diversidade racial dentro da política.

Entre as 24 mulheres que já ocuparam assento na Alepi, estão Vanessa Tapety (mandato de 2003–2007), Lílian Martins (2003–2010) e Bárbara do Firmino (eleita em 2022, atual legislatura). A representatividade feminina na Assembleia vem se fortalecendo também através de leis que partem das próprias deputadas. Um exemplo é a Lei nº 8.824/2025, de autoria da deputada Vanessa Tapety, que criou o Cadastro Estadual de Pessoas Condenadas por Crimes de Violência contra a Mulher.

A medida, inédita no estado, garante que qualquer pessoa possa consultar o nome e a foto de condenados por crimes de violência de gênero com sentença definitiva. O objetivo é proteger e informar, oferecendo às mulheres mais segurança e poder de decisão.

Pra começar do início, eu vi uma reportagem onde uma mulher disse que foi agredida e que se soubesse do passado do agressor ela não teria se envolvido emocionalmente com a pessoa, e isso me deu a ideia de como solucionar esse problema de nós mulheres nos resguardamos e todos os cidadãos ficarem atentos ao que aconteceu na vida pregressa de cada agressor, o governo sancionou essa lei e daqui a 30 dias vai valer no site da secretaria de segurança, vai sair foto e nome e crime que cometeu, ao acessar o site da Secretaria de Segurança, mas, é claro, apenas os condenados com sentença transitada em julgado. Assim, todas as pessoas terão acesso ao passado dos agressores. É uma forma de proteger vidas.  

Vanessa Tapety – Foto: Reprodução ALEPI

Outro marco simbólico veio com Bárbara do Firmino, que se tornou a primeira deputada na história de 190 anos da Alepi a tirar licença-maternidade durante o mandato. Um acontecimento que demonstra o raso número de mulheres eleitas ao longo da história, e a necessidade urgente de pensar o motivo de que apenas em 2025, uma parlamentar conseguir exercer a maternidade sem abrir mão da vida pública.

“Ser a primeira mulher em mais de cem anos da Assembleia Legislativa a exercer o direito à licença maternidade é algo muito simbólico. Esse momento representa não apenas uma conquista pessoal, mas também um avanço coletivo para todas as mulheres que ocupam o espaço de poder.”

Assista na íntegra, fala completa da deputada Bárbara do Firmino sobre a licença-maternidade parlamentar para o Piauiensidades: 

 

Já a deputada Lílian Martins relembra a sua atuação na área da habitação e da assistência social, defendendo o direito das mulheres de baixa renda a terem seu nome incluído nos documentos das casas e como essa lei se tornou uma política pública necessária para essas mulheres.

“A fundamentação maior foi em função de que, numa separação, ou quando havia alguma briga entre casais, as mulheres nunca ficavam com a casa. Ou seja, elas sempre ficavam dependentes do homem.  Então isso favoreceu muito, porque só o fato de no documento constar o nome dela, mesmo que numa separação que exigisse divisão meio a meio, mas o nome estando no da mulher, uma mulher de baixa renda, responsável pelo sustento da família, isso ajudaria muito, e ajudou”. explicou Lilian.

Lilian Martins faz da sua trajetória política uma trajetória de luta, e deixa um recado de força para as mulheres:

As mulheres devem estar vigilantes para que essas conquistas não retrocedam.

Lilian Martins durante mandato de deputada estadual do Piauí – Foto: Reprodução

Desde a adoção das cotas de gênero na política brasileira, a partir da Lei nº 9.504/1997 e da Lei nº 12.034/2009, que fixaram o mínimo de 30% de candidaturas femininas, o desafio tem sido transformar o número em presença efetiva. No Piauí, esse processo é visível nas últimas legislaturas, mas ainda há um longo caminho para que possa equiparar a quantidade de mulheres e homens eleitos que ainda é estarrecedor. É necessário que se compreenda também quem são as mulheres que conseguem ocupar esses espaços, e o motivo de ter tido em 190 anos de vida legislativa, apenas uma mulher negra eleita.

Na prática, a Alepi tem se tornado um espaço mais plural, com vozes femininas que impulsionam debates sobre direitos humanos, saúde, segurança pública e igualdade racial e de gênero. Os avanços recentes mostram que a presença das mulheres na política não é apenas uma conquista individual, é uma conquista coletiva, geracional e um marco institucional. Cada lei aprovada, cada direito garantido e cada existência feminina que germina no plenário representa avanços rumo a uma Assembleia mais democrática e diversa.

A história de Francisca Trindade, a coragem de Vanessa Tapety, o pioneirismo de Bárbara e a experiência de Lílian Martins se entrelaçam em uma trajetória de vanguardismo e transformação. O caminho ainda é longo, mas a trilha já está aberta, e pavimentada por mulheres que decidiram ocupar, com competência e sensibilidade, o espaço que sempre lhes pertenceu.

Linha do tempoDeputadas estaduais do Piauí:

1970 – Josefina Ferreira da Costa – primeira mulher eleita deputada estadual do Piauí

1998 – Francisca Trindade – primeira mulher negra deputada estadual; referência na política progressista.

1998 – Margarida Bona – professora, eleita no mesmo pleito que Francisca Trindade.

1999 (suplente) – Maria José Leão – assumiu o mandato e foi eleita depois em 2002.

2002 – Flora Izabel – jornalista, uma das mais longevas parlamentares (reeleita em 2006, 2014 e 2018).

2003 (suplente) – Marilene Aguiar – convocada para a legislatura de 2003 a 2006.

2006 – Lílian Martins – médica e ex-primeira-dama do Estado; reeleita em 2010.
2006 – Ana Paula Mendes – reeleita em 2010 e novamente em 2022.

2010 – Juliana Moraes Souza – reeleita em 2014.
2010 – Belê Medeiros – também suplente em legislaturas seguintes.
2010 – Rejane Dias – deputada estadual e posteriormente federal.
2010 – Liziê Coelho – reeleita em 2014.
2010 – Margarete Coelho – posteriormente vice-governadora do Piauí.

2012 (suplentes) – Amparo Paes Landim e Nize Rêgo – assumiram durante a legislatura.

2014 (suplente) – Elza Bucar –
2014 – Janaínna Marques 

2018 – Lucy Soares 
2018 – Teresa Britto 

2020 (suplente) – Jôve Oliveira 

2022 – 2026 –  Ana Paula Mendes
2022 –  2026 – Janaínna Marques – Licenciada 
2022 –  2026 – Gracinha Mão Santa – atualmente em exercício.
2022 – 2026 –  Bárbara do Firmino  – atualmente em exercício.
2022 – 2026  (suplente) – Elisângela Moura – atualmente em exercício.
2022 – 2026  (suplente) – Simone Pereira – Licenciada 

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