Dois filmes e uma premiação: Piauí marca presença no “Oscar baiano”

Dois filmes e uma premiação: Piauí marca presença no “Oscar baiano”

O Piauí marca presença no Panorama Internacional Coisa de Cinema com dois filmes na programação da edição de 2026. Considerado o festival mais antigo da Bahia e um dos mais relevantes do país, o evento reúne as produções piauienses Caldeirão, premiado na mostra competitiva, e Boi de Salto, reafirmando a inserção do estado no circuito nacional de festivais.

Realizado em Salvador e também na cidade de Cachoeira, o Panorama Internacional Coisa de Cinema chega à sua 21ª edição consolidado como uma das principais vitrines do cinema brasileiro contemporâneo. Ao longo de mais de duas décadas, o festival se firmou como espaço de exibição, formação e reflexão crítica, sendo frequentemente chamado de “Oscar baiano” pela sua relevância histórica no cenário audiovisual.

Na edição de 2026, o Piauí aparece com duas produções na programação, reafirmando uma presença que, embora ainda intermitente, tem se mostrado cada vez mais consistente. Em anos anteriores, o estado também contou com dois filmes selecionados, um deles premiado, o que evidencia não apenas participação, mas capacidade de destaque dentro do festival.

Esse reconhecimento se fortalece com o curta-metragem Caldeirão, dirigido por Oliveira Júnior, Milena Rocha e Weslley Oliveira, vencedor do prêmio de Melhor Curta-Metragem pelo Júri das Associações na mostra competitiva nacional.

A premiação foi concedida por um júri formado por representantes de três entidades do setor audiovisual brasileiro: a Associação de Autores Roteiristas da Bahia, a Associação de Profissionais do Audiovisual Negro e a API – Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro. A composição reúne olhares ligados à criação, à produção e às pautas de diversidade e representatividade, conferindo ao prêmio um caráter estratégico dentro do campo audiovisual.

No anúncio oficial, o júri destacou:

Onde o passado adormece quando não é lembrado?
Como uma arte que se expande em si mesma, o cinema nos oferece infinitas possibilidades de experimentação e de novas abordagens que tanto podem nos encantar, como introduzir personagens e espaços que atravessam o futuro, passado e presente.

É desafiador criar uma história que caiba em pouco tempo e, ainda mais, carregada de inventividade estética, memória e metalinguagem inseridas na trama de forma sensível e encantadora.

O curta que decidimos premiar aponta para um futuro que não se esgota pelo que não foi, mas pelo que já é; reconhece o legado e a importância do coletivo que se faz de dentro para fora e abraça a forma e a experimentação para registrar e celebrar a história do seu território.

Em uma abordagem sensorial, numa espécie de boas-vindas, a narrativa enaltece as histórias orais e as molda numa encruzilhada espaço-tempo que não se encerra em si mesma e vai além do que a tela pode mostrar.

Com artesania e versatilidade, o filme provoca o lugar da realização ao jogar luz sobre quem filma e quem é filmado. E, de forma inventiva, aponta para um fazer cinematográfico que, mesmo carregado de ausências, apresenta um caldeirão de espaços, tempos e pessoas que sempre deveriam ter sido vistos, celebrados e eternizados na tela do cinema.

Nós, do júri das associações do XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema, temos a honra e o prazer de conceder o prêmio de melhor curta-metragem da competitiva nacional ao filme Caldeirão, dirigido por Oliveira Júnior, Milena Rocha e Weslley Oliveira.

A premiação reforça o peso político do reconhecimento. Mais do que um destaque estético, evidencia a qualidade técnica e narrativa do filme, que dialoga com tradições do documentário brasileiro ao mesmo tempo em que propõe novas formas de construção cinematográfica. A obra evoca referências de cineastas como Eduardo Coutinho e Petra Costa, além de dialogar com produções piauienses como Coração Materno (1974), de Haroldo Barradas, ao mobilizar memória, metalinguagem e o gesto de filmar como parte da própria narrativa.

Ambientado no Açude Caldeirão, em Piripiri (PI), o filme constrói uma narrativa que transita entre documentário e fabulação, articulando memória oral, experimentação formal e uma abordagem sensorial do território. Ao tensionar tempo, espaço e linguagem, a obra se insere em um campo de cinema que expande as possibilidades do documentário contemporâneo.

Ao lado de Caldeirão, o filme Boi de Salto, dirigido por Tássia Araújo, amplia a presença piauiense no festival não apenas em número, mas em linguagem e proposta estética. Primeiro curta de ficção da diretora, a obra se constrói como uma fábula contemporânea que revisita o imaginário do bumba meu boi a partir de uma perspectiva dissidente, tensionando tradição e reinvenção.

No centro da narrativa está Abdias, um jovem que sonha em dançar de salto alto no grupo mais tradicional de boi de sua cidade. Ao ser impedido, o personagem cria sua própria tradição, deslocando o ritual para um território de liberdade e afirmação.

A participação dupla no Panorama revela um movimento de consolidação do audiovisual piauiense que, mesmo diante de desafios estruturais como financiamento e distribuição, tem conseguido acessar espaços estratégicos e disputar visibilidade no cenário nacional.

Compartilhe:

Matérias Relacionadas