Em tempos em que a violência de homens contra mulheres atravessa brutalmente o nosso cotidiano, lembrar também é um ato de resistência. O Piauí é terra de mulheres escrevem, lutam, criam, resistem. Mulheres que são, por si só, uma resposta à misoginia.
Aqui, reunimos algumas delas. Em ordem alfabética, mas todas do mesmo tamanho na história.
ADRIANA SILVA
De União-PI para o mundo, Adriana Leal da Silva, mais conhecida como Maga, é uma futebolista piauiense que atua como atacante. Atualmente, joga no Al-Qadsiah, da Arábia Saudita, e na Seleção Brasileira. Dona dessas histórias que inspiram, Adriana é de origem humilde e encontrou no futebol não só um sonho, mas um caminho possível.

Começou a carreira ainda adolescente, no Flamengo do Piauí e, a nível local, também atuou no Tiradentes (PI), seguindo depois para clubes nacionais como Rio Preto(SP) e Corinthians(SP).
Na Seleção Brasileira, disputou Copa do Mundo e Olimpíadas, além de ter sido artilheira da Copa América Feminina de 2022, um dos marcos mais expressivos da sua trajetória. Entre títulos e gols, sua história carrega mais que números: carrega representatividade.
Mulher negra, piauiense e LGBTQIA+, Adriana também ocupa um lugar importante fora de campo, sendo referência para muitas meninas que, como ela, sonham em viver do futebol e existir com liberdade.
DÁCIA IBIAPINA
Dácia Ibiapina da Silva é uma cineasta piauiense que construiu sua carreira numa trajetória que mistura arte, política e escuta. Nascida em São João do Piauí, começou na engenharia, mas foi no audiovisual que encontrou sua linguagem de transformação.

Desde o cineclubismo em Teresina, nos anos 1980, até sua atuação como professora na Universidade de Brasília, Dácia nunca se afastou de um compromisso: contar histórias que importam. Histórias de território, de povo, de resistência.
Seus documentários atravessam festivais e fronteiras, mas permanecem com os pés fincados no chão nordestino. Obras como Entorno da Beleza, Ressurgentes e Cadê Edson? mostram que cinema também é ferramenta de luta.
Dácia filma como quem escuta. E escuta como quem entende que toda imagem também é política.
ESPERANÇA GARCIA
Antes mesmo de existir qualquer ideia formal de direitos para mulheres negras no Brasil, uma voz já se levantava do Piauí. Era Esperança Garcia.

Em 1770, ainda sob a condição de escravizada, escreveu uma carta denunciando violências sofridas por ela e por seu filho. Aquele documento foi um ato de coragem, um enfrentamento direto a um sistema inteiro.
Sua carta é hoje reconhecida como a primeira petição jurídica escrita por uma mulher no Brasil. Séculos depois, veio também o reconhecimento oficial: Esperança Garcia é considerada a primeira advogada do país.

FRANCISCA TRINDADE
Francisca Trindade não passou pela política: ela atravessou a política com a força de quem veio do povo e nunca saiu dele. Nascida em Teresina, fez da militância seu modo de existir.

Do bairro Água Mineral para as tribunas, sua trajetória foi marcada pela defesa das mulheres, da população negra, das comunidades periféricas e dos direitos humanos. Era uma voz que incomodava e exatamente por isso era necessária.
Eleita vereadora, deputada estadual e depois deputada federal, enfrentou estruturas rígidas e masculinas, abrindo espaços onde antes não havia sequer lugar. Sua atuação também deixou marcas concretas, como a luta por direitos ligados à maternidade na política, fruto de uma vivência real e urgente.
JOVITA FEITOSA
Num Brasil ainda em guerra, uma jovem decidiu não assistir de longe. Jovita Feitosa quis lutar. Vivendo no Piauí, tomou conhecimento das violências da Guerra do Paraguai e decidiu se alistar. Para isso, percorreu centenas de quilômetros até Teresina, disfarçada de homem, enfrentando limites impostos ao seu tempo e ao seu gênero.

Mesmo após ser descoberta, sua coragem não passou despercebida. Chegou a ser reconhecida como segundo sargento e seguiu para o Rio de Janeiro com os voluntários piauienses. Impedida de atuar diretamente no front como queria, ainda assim se manteve firme em seu propósito de servir.
Jovita morreu jovem, em 1867, mas sua história permanece como um dos maiores símbolos de bravura feminina no Brasil. Hoje, integra o Livro dos Heróis da Pátria. Uma mulher que, muito antes de qualquer permissão, já fazia o que diziam que ela não podia.
MARIA SUELI
Maria Sueli Rodrigues de Sousa é dessas mulheres que não cabem só em um título. Professora, intelectual, militante mas, acima de tudo, uma voz profundamente conectada ao povo.

Nascida na zona rural de Francinópolis -PI, conheceu desde cedo as durezas da vida. Trabalhou como doméstica ainda criança, equilibrando o trabalho com o desejo de estudar. E foi esse mesmo desejo que a levou a construir uma trajetória marcada pelo pensamento crítico e pela luta coletiva. Atuou diretamente nos movimentos feministas do Piauí, ajudando a construir organizações e articulações fundamentais, como a União das Mulheres Piauienses e a luta contra o feminicídio no estado.
Teve papel decisivo também no reconhecimento de Esperança Garcia como advogada, resgatando uma história que o tempo quase apagou. Escreveu “Vivências constituintes – Sujeitos Desconstitucionalizados” pouco antes de sua partida em 2022. Maria Sueli virou ancestral. Mas continua sendo caminho.

Em tempos de cultura redpill e misoginia em ascensão, lembrar dessas mulheres é mais que homenagem: é estratégia. Cada uma delas, à sua maneira, enfrentou silêncios impostos, violências naturalizadas e estruturas que insistem em se repetir.
E se hoje ainda é preciso lutar, que seja também com memória e com Piauiensidade.



