De vez em quando me pego pensando: por que é que o Cine Rex fechou? De vez em quando, não — todos os dias eu me pergunto por que é que o Cine Rex fechou e ninguém fez nada, ninguém chorou. Por quê? Por quê? Aqui, eu conheci a vida, eu conheci o cinema.
Assim inicia o curta-metragem do cineasta piauiense Alan Sampaio, ” O cine Rex e Nos”. E, particularmente, achar esse filme foi como um abraço na alma de alguém que não está mais entre nós. Assim como Torquato, Alan Sampaio tinha o mesmo perfil — parafraseando Toninho Vaz, na biografia de Torquato Neto — tinha uma alma contestadora, mas vivendo em uma redoma provinciana.

Alan Sampaio faleceu aos 24 anos, em 2007, e nos deixou obras com alma, contestação e revolta — dignas de um piauiense; nos deixou arte. Inicio falando de Alan porque acredito que, antes de falar sobre algo, é preciso compreender o que aqueles que vieram antes de nós já deixaram como mensagem.

Alan Sampaio foi meu aluno, e eu sempre fui de pedir trabalhos em que as pessoas criassem alguma coisa. Pedi vídeos, e Alan fez um trabalho ainda muito iniciante, sobre — acho — mulheres na prostituição, mas com uma sensibilidade fora do comum. A partir daquele trabalho, passei a chamá-lo de meu cineasta. Eu disse: ‘Alan, você é um cineasta, você precisa tirar isso de você’.
Alan mal falava na sala de aula, e então começou a trabalhar nisso. Eu não dei técnica nenhuma para ele; o que dei foi força. Sempre que ia lançar um filme, ele me dedicava ou agradecia. Cine Rex e Nós, ele homenageou o pai; em Um Homem com uma Câmera, é ele. O acervo de filmes de Alan revela a sensibilidade fora do comum de um artista.
- Jacqueline Lima Dourado, professora associada do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e doutora em Ciências da Comunicação.

Mas, afinal, o que é o Cine Rex? Quem é o Cine Rex?

Hoje, ele é definido como “um antigo cinema de rua e ícone cultural localizado na Praça Pedro II, no Centro de Teresina (PI), ao lado do Teatro 4 de Setembro — um dos principais polos culturais da cidade”. Inaugurado em 26 de novembro de 1939 pelos empresários Deoclésio Brito e Bartolomeu Vasconcelos, o Cine Rex abriu suas portas com a exibição do filme A Grande Valsa. É considerado a primeira sala de projeção da cidade e um marco fundamental da vida cultural de Teresina por décadas.

Sua arquitetura chama a atenção: os vitrais azuis convidam quem passa a entrar. O prédio é um exemplar do estilo Art Déco, com linhas sóbrias, volumes geométricos e elementos clássicos desse movimento arquitetônico. O Cine Rex possuía grande capacidade: a sala principal comportava, inicialmente, cerca de 800 lugares, enquanto uma segunda sala, no piso superior, acomodava aproximadamente 450 pessoas.

Em 1995, foi iniciado o processo de tombamento do prédio pela Fundação Cultural do Piauí (FUNDAC), em razão de seu valor histórico e cultural. Ainda assim, mesmo com toda a sua relevância, o cinema de rua em Teresina entrou em decadência, impactado pelas lógicas capitalistas que impulsionaram o surgimento dos shoppings centers e dos multiplexes. Em seus últimos anos de funcionamento, até filmes pornográficos passaram a integrar a curadoria do Cine Rex — um sintoma do esvaziamento, do abandono e da tentativa desesperada de sobrevivência daquele que já foi um dos principais templos do cinema na cidade.
Uma das desgraças dos cinemas no centro de Teresina foi exatamente a abertura dos shoppings. Porque os shoppings vêm com vários cinemas, em um espaço com mais segurança e tranquilidade. A pessoa faz as compras em qualquer hora do dia e pode aliar isso a assistir a um filme. Os cinemas do centro sofreram um impacto muito grande com a abertura dos shoppings, principalmente na zona Leste. Isso esvaziou, inclusive, o centro da cidade, porque as pessoas passaram a ter um espaço com conforto. Hoje são três grandes shoppings, além de outros shoppings de bairro. Com isso, as pessoas deixam de ir ao centro ou simplesmente não precisam mais ir.
- Ricardo Arraes, historiador, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e autor de estudos sobre política piauiense contemporânea.
Ao longo da história de Teresina, a cidade contou com diversos tipos de salas de exibição. Entre elas, o Cine Teatro 4 de Setembro, o Cine Rex, o Cine São Raimundo, o chamado “Cine Poeira”, no bairro Piçarra, além da sala de cinema do Baloon Center, do Centro de Convenções e do conhecido Cine Royal. Apesar de os cinemas serem considerados espaços mais democráticos do que os teatros, havia exigências de vestimenta para que o público pudesse adentrar esses ambientes, refletindo os códigos de comportamento, distinção social e moralidade vigentes à época.


Teresina, nas primeiras décadas do século passado, chegou a ter vários cinemas. A cidade nunca foi um lugar sem cinema no centro — sempre houve salas de exibição, especialmente naquele período em que Teresina era uma cidade reduzida, muito pequena, com uma elite que queria frequentar o teatro e o cinema. O cinema, inclusive, era algo mais em conta, mais democrático do que o teatro, que era um espaço mais caro. Embora também se exigissem trajes adequados, havia uma preocupação muito grande com a forma de se vestir para sair de casa, frequentar clubes, bares, restaurantes, o cinema e o teatro.
- Ricardo Arraes, historiador, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e autor de estudos sobre política piauiense contemporânea.
Na década de 2000, houve uma tentativa de revitalização do Cine Rex. Em meio a esse processo, o espaço chegou a ser convertido em boate — inclusive com o envolvimento de setores ligados à igreja —, mas o projeto teve curta duração e não se sustentou. O local acabou novamente fechado e, desde então, o edifício permaneceu abandonado e em avançado estado de deterioração, apesar de sua importância simbólica, histórica e arquitetônica.
Isso acabou esvaziando tanto o Cine Royal, que fecha primeiro, quanto o Cine Rex, que ainda permanece por algum tempo, mas depois não tem mais condições de sobreviver apenas com esse tipo de filme. Até porque a internet já passa a disponibilizar esse conteúdo, sem que seja preciso sair de casa. Essas transformações vão minando esses cinemas: a tecnologia, as novas formas de reprodução e circulação dos filmes, que eles não conseguiram acompanhar. Esses cinemas não acompanharam a evolução tecnológica da exibição cinematográfica. Isso, de alguma maneira, funciona como um vértice explicativo da falência desse tipo de casa de exibição.
- Ricardo Arraes, historiador, professor do Departamento de História da UFPI.

Em 2 de agosto de 2024, o governador do Piauí, Rafael Fonteles, assinou um decreto declarando o Cine Rex de utilidade pública para fins de desapropriação pelo Estado. O objetivo era adquirir o imóvel — então sob propriedade privada dos herdeiros do médico David Cortellazzi — por meio de compra negociada ou via judicial. Em setembro de 2024, a Procuradoria-Geral do Estado ajuizou a ação de desapropriação para possibilitar a intervenção no prédio, avaliado à época em aproximadamente R$ 6,5 milhões.

Já em 25 de novembro de 2025, foi anunciado oficialmente que o Cine Rex será revitalizado e transformado na Escola Estadual de Audiovisual e Cinema Público — um espaço voltado à formação técnica e artística de jovens e estudantes.
No filme O Cine Rex e Nós, Alan Sampaio traz a fala de David Cortellazzi, empresário e cinéfilo, que explica os motivos do fechamento do cinema:
Toda empresa em funcionamento tem que apresentar resultados. Nos últimos cinco anos, o Cine Rex vinha operando no vermelho. Aguentei durante quase cinco anos, mantendo o cinema do meu próprio bolso. Diante disso, resolvemos interromper as atividades para acabar com os prejuízos mensais. Antigamente, nós tínhamos uma ocupação de quase 100% do cinema.

Mais de 18 anos após o fechamento, o Estado volta a olhar para o Cine Rex. No entanto, recuperar o prédio não significa apenas intervir em sua estrutura física. Como lembra Jacqueline Dourado, é fundamental também recuperar as memórias que esse espaço produziu:
O Cine Rex e Nós é um filme que, inclusive, na reinauguração do Cine Rex — como escola, como espaço de formação — precisa ser recuperado. E ser reexibido lá. A memória do Alan precisa ser recuperada.
- Jacqueline Lima Dourado, professora associada do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e doutora em Ciências da Comunicação.
O Cine Rex e Nós também se insere nesse debate como um gesto de preservação da memória. Após o fechamento do cinema, Alan Sampaio exibiu o filme na parte externa do prédio, projetando na fachada aquilo que já não podia mais ser acessado em seu interior, um presente para o próprio pai que o apresentou aquele mundo. A exibição reforça o entendimento de que a recuperação do Cine Rex não se resume à requalificação física do imóvel, mas envolve também a valorização das histórias e das memórias produzidas naquele espaço, como destaca a professora Jacqueline Dourado.

Como fica o Café Art Bar?
O tradicional Café Art Bar, localizado na Praça Pedro II, pode estar prestes a deixar o espaço que ocupa há cinco décadas. A possibilidade surge após o anúncio da reforma do Cine Rex, conduzida pela Secretaria de Estado da Educação (SEDUC) e pela Secretaria de Estado da Cultura (SECULT) do Piauí, que prevê a implantação da Escola Estadual de Audiovisual e Cinema Público no prédio histórico.

Com a instalação de uma instituição de ensino, passa a valer a legislação estadual que proíbe a venda de bebidas alcoólicas em estabelecimentos educacionais e em seu entorno imediato, o que pode inviabilizar a permanência do bar no local. Até o momento, o proprietário foi informado apenas sobre a iminência da reforma, sem definição concreta sobre o futuro do espaço.
Fundado em 20 de setembro de 1975, o Art Bar atravessou gerações e se consolidou como ponto de encontro de artistas, estudantes, trabalhadores do comércio e frequentadores da região central. Para Didi, garçom do bar há 13 anos, a mobilização popular em defesa do espaço confirma sua importância histórica e afetiva. “Isso mostra que a casa é bem aceita pela população. É um lugar antigo, que já passou por várias gerações. É legal ver que as pessoas querem a permanência do Café Art Bar”, afirma.

Mesmo após a pandemia e diante das dificuldades financeiras, o bar segue funcionando como um dos poucos espaços de convivência contínua da Praça Pedro II.
A possibilidade de fechamento provocou reações e manifestações públicas. Zé Marques, presidente do Fórum de Arte e Cultura e um dos idealizadores do movimento em defesa do Centro, lembra que a luta pela desapropriação do Cine Rex começou ainda em 2022, a partir da mobilização popular. “A gente via aquele prédio deteriorado e começou a brigar pela desapropriação com faixas, cartazes, chamando a mídia. Quando vimos, o governo já tinha desapropriado”, relata.


Para ele, o problema está na condução atual do processo. “Agora querem tirar o Café Art Bar, que é o bar dos artistas. Não faz sentido pensar um espaço de cultura sem convivência. Todo mundo bebe, todo mundo se encontra. Não existe turismo nem vida cultural sem isso”, critica. Zé Marques afirma ainda que não há projeto executivo nem licitação em andamento.

Frequentador do Art Bar há mais de 20 anos, Kilito Trindade destaca que o espaço vai além do circuito artístico e cumpre um papel urbano fundamental. “O Art Bar e a Praça Pedro II funcionam como um centro de verdade. As pessoas passam, conversam, trocam afetos. Não é só dos artistas”, afirma. Para ele, a criação de uma escola de cinema no Centro é um avanço importante, mas não deveria excluir outros espaços culturais.
Ter uma escola de cinema aqui é maravilhoso, mas uma coisa não inviabiliza a outra. Se você tira o Art Bar daqui, ele perde essa relação direta com as pessoas. Ele é um lugar de passagem, de encontro, de vida.

O que afirma o Poder público?

O Piauiensidades entrou em contato com a Secretaria de Estado da Educação (SEDUC) e com a Secretaria de Estado da Cultura (SECULT) para obter informações sobre o futuro do Cine Rex. A SEDUC informou que ficará responsável pela implantação da Escola Estadual de Audiovisual, mas não há, até o momento, previsão para o início nem para a conclusão das obras.
Já a SECULT afirmou que será responsável pela gestão do cinema após a revitalização e que mantém tratativas com o Café Art Bar, embora o proprietário do espaço informe que não foi contatado.
Até o fechamento desta reportagem, não foram divulgadas informações sobre o valor total da obra, a data de início, o prazo de entrega, o modelo de acesso ao cinema — se gratuito ou pago — nem sobre os critérios para a contratação dos profissionais que atuarão no equipamento cultural.

Fontes consultadas na internet:
- https://amusaesquecida.blogspot.com/2014/09/lembrancas-do-cine-royal.html
- https://crcfundacpiaui.wordpress.com/2021/02/03/cine-rex-o-reminiscente-da-7-arte-teresinense/
- https://www.pi.gov.br/cine-rex-sera-transformado-em-escola-de-audiovisual-e-cinema-publico/?utm_source=chatgpt.com



