De trabalho no campo a patrimônio cultural: conheça a história da vaquejada

De trabalho no campo a patrimônio cultural: conheça a história da vaquejada

DE OBRIGAÇÃO DO CAMPO A PATRIMÔNIO CULTURAL

A vaquejada nasceu da necessidade. Nos tempos em que a pecuária era a principal atividade econômica do sertão piauiense, era tarefa quase diária do vaqueiro capturar o boi no mato para tratar ferimentos, cuidar de vacas prenhas ou reunir o rebanho. Com o tempo, essa obrigação virou um momento de socialização: vaqueiros de diferentes fazendas se reuniam nos fins de semana para medir força e habilidade. “Foi assim que a vaquejada passou do mato fechado para as pistas. De um trabalho duro, ela virou esporte e cultura”, explica o historiador piauiense Vinícius Carvalho Marques, pesquisador da tradição vaqueira.

Vaqueiros assistem vaquejada no interior do Piauí – Foto: Jhoária Carneiro

No Piauí, a prática da vaquejada se consolidou a partir da segunda metade do século XX. Hoje, ela é reconhecida nacionalmente como patrimônio cultural imaterial brasileiro (Lei Federal nº 13.364/2016) e reforçada pela Lei nº 13.873/2019, que estabelece normas de bem-estar animal.

O crescimento do esporte foi impulsionado pela criação de categorias — aspirante, amador e profissional — que ampliaram a participação e contribuíram para a profissionalização da prática. A expansão também se fortaleceu com a construção de parques e haras de vaquejada e com o surgimento de bandas de forró associadas ao universo do vaqueiro, como Mastruz com Leite, Cavaleiros do Forró e, mais recentemente, o cantor Zé Vaqueiro, fortalecendo a identidade cultural do Nordeste.

Um dos marcos no estado é o município de Colônia do Piauí, que em 2019 recebeu o título de Terra da Vaquejada. A cidade celebra mais de 40 anos dessa tradição, considerada motor cultural e econômico da região.

Projeto de lei concede título de “Terra da Vaquejada” ao município de Colônia do Piauí – Foto: Reprodução ALEPI

Mais do que competição, os eventos movimentam intensamente a economia local. Shows, gastronomia e entretenimento transformam as chamadas festas de vaqueiro em grandes celebrações regionais, onde tradição e modernidade se encontram.

“Os finais de semana de vaquejada são momentos de confraternização. Os vaqueiros equipam seus caminhões, levam a família, reencontram amigos. É um fenômeno social”, ressalta Vinícius.

O ABOIADOR

Entre os sons mais marcantes da vaquejada está o aboio, um canto poético improvisado pelos vaqueiros para conduzir o gado, embalar a lida ou descrever as ações da competição. É uma herança oral passada de geração em geração, que influenciou o forró, o repente e tantas outras expressões nordestinas. No Piauí, Zé Antônio Aboiador de 74 anos, é um dos guardiões dessa tradição, dedicando 40 anos de sua vida ao aboio nas vaquejadas do sul do estado.

Zé Antônio Aboiador – Foto: Arquivo Pessoal
“O aboio é o símbolo das vaquejadas no Piauí. Pra mim, é arte, é cultura viva da qual eu me orgulho muito de ser”. Ouça na íntegra o aboio feito pelo Zé Antônio Aboiador para o Piauiensidades:

O Piauiensidades é um espaço legal Com Jhoária e Mariana que apresenta o jornal Todo nosso Piauí ligado pra assistir É audiência total.   O jornalismo é cultura, no nosso Brasil inteiro E a vaquejada faz parte neste sertão brasileiro É aí que se mistura, a vaquejada é cultura Gado, cavalo e vaqueiro.   O vaquejada é importante, um festival de valor, pode ser na capital, cidade ou interior, onde se encontram os artistas, repentistas, jornalistas, tudo é cultura e amor.

O reconhecimento do aboio como patrimônio estadual, garantido por lei aprovada pela Assembleia Legislativa, reforça o compromisso do Parlamento piauiense com a proteção da cultura popular e com o resgate das raízes identitárias que formam o povo do Piauí. A vaquejada não é feita apenas de cavalos e bois; é feita de pessoas que carregam a cultura através dos anos. Dona Maria Lúcia, de 72 anos e vaqueira há mais de quatro décadas, conta sobre sua vida nesse universo: “Eu acho muito importante. Ser vaqueira exige responsabilidade. Tenho feito isso há muitos anos e só vou deixar quando não aguentar mais. Quando chego em um lugar onde não tem madrinha ou rainha, eu sou. Uso minha faixa, meu chapéu, meu guarda-peito, faço tudo com muito gosto. Não tenho vergonha, não me acanho, faço porque gosto e porque é minha festa. É um trabalho, mas também é alegria. Minha vida é a vaquejada, e é nela que eu continuo até o dia que meus olhos não se abrirem mais.”

Dona Maria Lúcia Vaqueira – Foto: Arquivo Pessoal
No contexto da vaquejada, a madrinha de vaqueiro é uma referência dentro do evento: alguém que representa a tradição, orienta os mais jovens, participa ativamente das festas e ajuda a manter vivos os rituais e costumes. Ao assumir esse papel, Maria Lúcia não apenas participa da vaquejada, mas também guia e preserva a cultura para as próximas gerações.

“Eu sou vaqueira. Ensino como posso e faço isso porque amo. Essa é minha festa.”

TRADIÇÃO E FUTURO

A vaquejada de hoje ganhou normas de proteção animal, fiscalização rigorosa, pistas de areia tratada e transmissão ao vivo nas redes sociais. Mas sua essência permanece intacta: o encontro do vaqueiro com seu cavalo e seu boi, a coragem e a paixão que atravessam gerações. Sobre o futuro, a jovem piauiense Anna Páscoa, rainha do vaqueiro de São Francisco do Piauí 2025, resume a importância da tradição: “O mais bonito é ver que as novas gerações estão mantendo viva essa cultura. Seja montando no cavalo, curtindo o evento ou postando nas redes sociais. O importante é manter a chama acesa. Se você ainda não conhece, fica o convite: Isso aqui é vaquejada. Isso aqui é Nordeste. Esse é o nosso orgulho.”

Anna Páscoa – Foto: Arquivo Pessoal

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