O Piauí consegue se ouvir?

O Piauí consegue se ouvir?

Tenho uma pergunta que gosto de fazer de vez em quando:

Quando alguém fala em música piauiense, o que vem à sua cabeça?

Faça o teste. Pergunte para alguém no trabalho, na faculdade, no bar, no grupo de amigos. É muito provável que, antes de qualquer resposta, venha um silêncio. Depois, talvez, Torquato Neto. Talvez alguém lembre do Hino do Piauí, ou da Maria da Inglaterra. E, não raramente, alguém pergunte:

— Mas tem música piauiense?

Tem. E talvez esse seja justamente um dos problemas: a gente não conhece aquilo que produz. O piauiense consome música o tempo inteiro. No carro, no paredão, na festa de família, no bar, no fone de ouvido enquanto atravessa a cidade. A música está no TikTok, no Instagram, no aniversário, no domingo, na vaquejada, na sofrência e naquela música que a gente jura que não gosta, mas sabe cantar inteira. O que nem sempre está presente é a música feita aqui.

Em 2025, segundo o ranking divulgado pelo Spotify, os cinco artistas mais ouvidos no Piauí foram Henrique & Juliano, Natanzinho Lima, Wesley Safadão, Felipe Amorim e Grupo Menos É Menos. Nenhum deles é piauiense. O dado não significa que o Piauí não produza música. Talvez ele diga algo mais interessante. Diga sobre aquilo que escolhemos consumir. Sobre o que reconhecemos como cultura. Sobre aquilo que aprendemos a considerar bom, relevante ou digno de atenção antes mesmo de conhecer. Existe uma coisa curiosa na nossa relação com a própria cultura: muitas vezes, parece que precisamos que alguém de fora reconheça aquilo que nasce aqui para só então percebermos seu valor.

Como se a cultura tivesse que atravessar uma fronteira invisível para ganhar importância. Como se precisasse sair para voltar com um selo de relevância. Essa lógica não aparece apenas na música. Ela atravessa diferentes campos da produção cultural e ajuda a explicar uma certa dificuldade que temos de olhar para aquilo que é produzido no próprio território. Mas é na música que essa contradição se torna especialmente barulhenta. Porque não existe uma única música piauiense. Existe Torquato Neto, as músicas de bumba meu boi, Laser Som, Maria da Inglaterra, Caju Pinga Fogo, Frank Aguiar, Chica Égua, Roque Moreira, Paullynho Paixão, Jaísa Caldas, Getúlio Abelha, Preta Cakau, Velho Bad, Narguilé Hidromecânico, NEGGS, Vavá Ribeiro e tantos outros. São artistas diferentes, linguagens diferentes, públicos diferentes. Do Rap, ao boi, ao trap, ao rock, ao forró, ao reggae, ao pagodão. De tudo, um pouco, com um toque especial.

Artistas Piauienses na imagem: Vavá Ribeiro, NEGGS, Validuaté, Caju Pinga Fogo, Maria da Inglaterra, Getúlio Abelha, Preta Cakau, Davi Lutasi, LASER SOM.

Talvez seja justamente essa diversidade que torne tão difícil responder à pergunta: o que seria, afinal, o som do Piauí? Não existe um único som. Existem muitos. O problema é que eles nem sempre conseguem chegar até nós. Entre quem produz e quem consome existe um caminho que, muitas vezes, é longo demais. Faltam espaços de circulação, divulgação, investimento, políticas culturais continuadas, profissionalização do mercado e, claro, dinheiro. Já que o sistema mercadológico da indústria é cruel, injusto, e obedece ao que o capital manda. Podemos nadar contra a corrente? Talvez. Talvez exista outra questão, menos objetiva e talvez mais difícil de enfrentar: o hábito. Pra haver sucesso de público, necessita de demanda.

Nossos hábitos de consumo cultural não são formados apenas por escolhas individuais. Eles também são produzidos pelo que chega até nós, pelo que é divulgado, recomendado, compartilhado, programado e transformado em tendência. O que não circula dificilmente será ouvido. E aquilo que não é ouvido dificilmente será reconhecido. É impossível pensar nessa relação entre produção, reconhecimento e território sem lembrar de Torquato Neto.

Torquato Neto / Acervo público

Nascido em Teresina, Torquato deixou o Piauí ainda adolescente e se tornou um dos nomes fundamentais da cultura brasileira do século XX. Jornalista, poeta, letrista e articulador cultural, participou ativamente do ambiente que deu origem à Tropicália e ajudou a tensionar as formas de pensar a música, a arte e a própria ideia de cultura brasileira. Um piauiense no centro de uma das maiores rupturas culturais do país. Torquato não foi apenas alguém que escreveu canções. Foi alguém que provocou, articulou, experimentou e incomodou. E talvez seja justamente essa palavra que me interessa aqui: incomodar. Na biografia de Torquato Neto, uma frase de Rogério Duarte aparece como uma espécie de chave para pensar aqueles que provocam rupturas:

“Ignora-se o fato de quem foi o primeiro a incomodar.”

Torquato Neto, acervo público

Penso muito nessa frase quando penso no Piauí. Porque talvez exista uma dimensão da nossa história cultural que esteja justamente aí: somos frequentemente lembrados depois que o reconhecimento já aconteceu. O artista é celebrado quando conquista outros territórios. A obra ganha valor quando passa a circular fora. A cidade se orgulha quando alguém de lá alcança algum lugar que o próprio território não conseguiu — ou não soube — oferecer. Não há nada de errado em sair. Pelo contrário. Circular é fundamental para qualquer artista. A cultura se constrói no encontro, no deslocamento, na troca entre territórios. O problema começa quando partir parece ser uma condição para ser ouvido. E talvez seja essa uma das perguntas que precisamos fazer quando pensamos na cultura piauiense: quantos artistas precisam sair daqui para que passemos a reconhecer aquilo que produziram aqui?

Essa questão nos leva para além da música. Porque, no fundo, talvez o problema não seja apenas saber quais artistas piauienses existem. Talvez seja saber o que fazemos com aquilo que é nosso. Identidade cultural não é uma essência escondida em algum lugar, esperando para ser descoberta. Ela se constrói pelo que contamos, lembramos, preservamos, divulgamos e colocamos no centro. E consumir cultura também faz parte desse processo. Quando compartilhamos uma música, compramos um ingresso, vamos a um show, acompanhamos um artista, recomendamos uma obra ou simplesmente apertamos o play, estamos ajudando a decidir o que permanece visível.

Isso não significa que o piauiense precise abandonar a música produzida em outros lugares. Não precisamos ouvir apenas artistas daqui para provar que somos piauienses. A cultura não existe em isolamento. O Piauí também é feito das músicas que chegam de fora, das influências que atravessam nossas fronteiras, das referências nordestinas, brasileiras e estrangeiras que são apropriadas e transformadas por quem vive aqui. O problema é quando o mundo inteiro cabe na nossa playlist e nós mesmos não cabemos nela. Essa contradição diz muito. A gente sabe cantar o Brasil. Sabe cantar o Nordeste. Sabe cantar o mundo. Mas será que sabe cantar o Piauí? Será que reconhece os artistas que estão construindo suas próprias linguagens enquanto continuamos repetindo que aqui não acontece nada? Acontece. E acontece muito. Existe produção acontecendo nos palcos pequenos, nos estúdios, nos quartos, nos festivais, nas festas e nas plataformas digitais. Existe gente inventando linguagem, experimentando som, misturando referências e criando apesar das dificuldades de circulação e reconhecimento.

Talvez o que falte não seja produção. Seja atenção. E atenção também é uma forma de participação cultural. Porque quando uma sociedade decide aquilo que merece ser visto e ouvido, ela também decide quais histórias terão espaço para continuar existindo. Por isso, ouvir um artista piauiense não deveria ser entendido como obrigação regionalista, nem como gesto de caridade. Não é preciso gostar de uma música apenas porque ela foi feita no Piauí. Mas talvez seja necessário conhecê-la antes de dizer que ela não existe. Pesquisar antes de repetir. Ouvir antes de concluir. Circular antes de esquecer. Talvez o artista que você está procurando não esteja tão longe. Talvez esteja na mesma cidade. Na mesma rua. A três bairros da sua casa. Talvez esteja na hora de apertar o play sem esperar que alguém de fora diga que vale a pena. E descobrir quantas formas esta terra encontrou — e continua encontrando — de transformar a própria existência em som. Volto, então, à pergunta: O Piauí consegue se ouvir? Talvez ainda não completamente. Mas talvez essa resposta comece justamente quando a gente decide escutar.

E, para quem quiser ir além da pergunta e começar a escutar por conta própria, o Piauiensidades preparou uma playlist para dar um mergulho na diversidade da música produzida no Piauí. Uma seleção que reúne diferentes épocas, artistas, gêneros e formas de criar — porque talvez não exista uma única maneira de soar piauiense. Então, antes de dizer que não existe música piauiense, dê o play. Aperte o play. Escute. Descubra. E, quem sabe, encontre um Piauí que você ainda não tinha ouvido.🎧 Ouça a playlist abaixo:

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