Enquanto A Fabulosa Máquina do Tempo, documentário filmado no Piauí e dirigido por Eliza Capai, avança na disputa para representar o Brasil no Oscar 2027, o filme não encontrou espaço nas salas comerciais de cinema de Teresina. A contradição chama atenção: uma produção realizada no estado, sobre meninas, mulheres e memórias piauienses, reconhecida nacionalmente e agora entre as obras na corrida pelo Oscar, não consegue chegar às telas da capital. Afinal, quem decide o que o público piauiense pode assistir? E até que ponto ainda seguimos presos à velha síndrome vira-lata , agora também aplicada ao próprio cinema feito por aqui?

Em entrevista ao Piauiensidades, a diretora do longa-metragem contou ter se surpreendido ao descobrir que o filme, gravado e produzido no Piauí, não teria espaço para exibição nas salas comerciais da capital. A expectativa da equipe era levar a obra para Teresina depois da pré-estreia nacional e da sessão realizada em Guaribas, cidade onde a filmagem aconteceu. Segundo Eliza, porém, a resposta recebida dos cinemas foi de que a prioridade naquele momento seria a estreia de uma produção estrangeira: O Homem-Aranha, um novo dia.
Eu tinha certeza que a sessão seguinte, após a estreia nacional, seria em Guaribas e de fato a gente fez essa sessão na praça, foram mais de 600 pessoas assistindo, a primeira sessão de cinema na cidade, foi muito bonito, ver as meninas com seus familiares, seus amigos, seus vizinhos.
E a gente tinha desejo de passar o filme logo nos cinemas, e o primeiro lugar que a gente falou que tinha que ser a pré- estreia, era em Teresina, por motivos óbvios, um filme inteiro rodado em Guaribas, no Piauí, conta a história de muitas pessoas piauienses, aquelas meninas estão representando muitas pessoas, é uma ideia de ver o próprio lugar muito forte.
A gente conseguiu organizar de duas meninas viajarem pra essa estreia, dentro do nosso orçamento de cinema independente e a nossa distribuidora entrou em contato com o cinemas Teresina, com os cinemas do Brasil, e eu fiquei particularmente muito em choque com a reposta de que o filme não entraria lá, porque era a estreia do Homem Aranha.
Foi pedido inclusive, nesse momento de pré-estreia, uma única sessão, no horário que eles quisessem, durante o fim de semana, já estávamos com passagens compradas pra Teresina, e o cinema disse que não, que não daria nenhuma sessão.

Diante da dificuldade de encontrar uma sala para a exibição, a equipe encontrou acolhimento no Sesc Cajuína, que viabilizou a sessão em Teresina. A diretora conta que, por ter sido organizada em cima da hora, chegou a imaginar que a sala estaria vazia. Aconteceu o contrário: a sessão lotou. Sem lugar entre as poltronas, a própria cineasta assistiu ao filme deitada no chão da sala.

Felizmente o Sesc nos acolheu muito bem, como foi tudo de última hora, achei que a sessão estaria vazia, e a sessão não apenas lotou todos os lugares (mais de 100 assentos), além das cadeiras disponibilizadas a mais, contei mais de 60 pessoas sentadas nos corredores, e digo que foi minha sessão mais divertida porque eu assisti deitada no chão do cinema porque não tinha mais lugar, foi uma sessão extremamente calorosa, as pessoas rindo muito, se emocionando muito, o debate foi lindo , e escutei de muitas pessoas como elas se viram na tela, como viram as próprias infâncias a infância dos pais, foi incrível.

No dia 9 de setembro, a Academia Brasileira de Cinema anunciou os seis longas-metragens pré-selecionados para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar 2027 na categoria de Melhor Filme Internacional. Entre eles está A Fabulosa Máquina do Tempo. A produção é o único documentário da shortlist, que também reúne os filmes brasileiros: 100 Dias, de Carlos Saldanha; A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo; Feito Pipa, de Allan Deberton; Nosso Segredo, de Grace Passô; e Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins. A escolha do filme que representará oficialmente o Brasil será feita pela comissão da Academia Brasileira de Cinema em 16 de setembro.
Eu fiquei imensamente feliz de receber a notícia de que A fabulosa Máquina do Tempo está entre os finalistas pra representar o Brasil no Oscar, é o único documentário nessa lista, é muito raro ter documentários, já que em geral os filmes internacionais selecionados são ficções. E estamos ao lado de filmes muito lindos e muito poderosos, filmes complexos, artisticamente muito bonitos, tecnicamente muito bem realizados, então dá muito orgulho de estar ali, também levantando esse debate sobre o valor do cinema documentário, muitas vezes se coloca o documentário como se não fosse filme ou cinema, e é muito importante a gente marcar presença pra falar sobre a potência que é o cinema documental.

Questionada sobre as expectativas da equipe em relação ao Oscar, a cineasta afirmou que chegar à lista de filmes pré-selecionados já representa, por si só, uma grande conquista. Para ela, no entanto, avançar na premiação envolve mais do que o reconhecimento artístico: o Oscar é, também, um espaço atravessado por relações de poder, interesses comerciais e disputas políticas. Trata-se de uma premiação estadunidense que, na contemporaneidade, combina cinema, política e indústria.
Eu entendo que corrida do Oscar é um lugar muito mais comercial e do poder de conseguir fazer campanha, de ter dinheiro, e eu não tenho expectativas da gente avançar e chegar no Oscar. Pra mim estar nessa lista já é nosso maior prêmio como documentário independente, feito com recursos públicos, a gente incorporou uma equipe de 3 pessoas, isso pra cinema é muito pequeno, mas foi uma opção pra conseguirmos ter o grau de intimidade e confiança com as meninas, então estarmos nessa lista já é um prêmio.

Da cidade da fome à cidade dos sonhos
Guaribas carrega uma imagem construída nacionalmente no início dos anos 2000, quando o município ganhou projeção ao ser escolhido como cidade-piloto do programa Fome Zero. Durante o processo de realização do filme, a diretora ouviu de moradores uma outra maneira de contar essa história. “Guaribas foi conhecida como a capital da fome. Agora, a partir desse filme, é a capital dos sonhos”, teria dito uma das moradoras.
Pra mim a questão mais aguda, foi observar que Teresina não programou esse filme, se revela, um lugar do preconceito que ainda se tem com o cinema nacional, e se revela o lugar da colonização, de como nós temos dificuldade de nos olhar com autoestima, continuamos nos olhando como um povo colonizado, menor, então nos ver seria algo menor, e isso é muito triste. Me marcou muito a frase de uma mãe em Guaribas que me falou: Guaribas era conhecida como a cidade da fome, e a partir desse filme, será conhecida como a cidade dos sonhos. E espero que a lista de finalistas do Oscar, ajude a levantar o filme, dar esse olhar que o Oscar muitas vezes traz, essa validação a partir do olhar externo desse olhar comercial, norte americano, pra que o filme entre em cartaz e as pessoas tenham essa possibilidade de se ver na tela.

A experiência de Capai também coloca em discussão outro problema: os horários oferecidos aos filmes brasileiros e independentes. A diretora relata que, em diferentes cidades, filmes documentais e independentes podem receber sessões em horários de baixa circulação, como manhã ou início da tarde. Para ela, não é possível afirmar que determinada obra não possui público sem considerar as condições em que esse público foi convidado a assistir.
O problema começa antes da sala de cinema
Para o cineasta piauiense Weslley Oliveira, um dos responsáveis pela Cocais Filmes, e realizador da Mostra Piranhão de Cinema, o caso revela um gargalo muito mais antigo: a distribuição. Segundo Weslley, a dificuldade aumenta porque Teresina concentra suas salas comerciais em espaços privados, localizados nos shoppings, cuja programação está submetida principalmente à lógica econômica da exibição.

Não se trata de afirmar que uma empresa privada tenha obrigação de programar qualquer filme específico. A questão é outra: o que acontece com a diversidade cinematográfica quando as principais janelas de exibição de uma cidade funcionam predominantemente pela lógica comercial?
É um problema estrutural, um gargalo muito antigo, que é essa questão da distribuição dos filmes, as políticas públicas ainda não deram conta de resolver isso, e aqui em Teresina só temos sala de cinema em shopping, que funcionam pelo viés comercial, muito comercial e pouco politizado, que operam em foco do lucro, infelizmente operam pelo senso comum de que o que é bom é o que vem de fora, de Hollywood. E distribuição de filme é uma questão econômica, pra distribuir filme, precisa de dinheiro, por isso os grandes estúdios tem esse monopólio, porque eles tem mais dinheiro pra investir em publicidade, algoritmo, tráfego pago e etc. então tudo é sobre recurso.

Para Weslley Oliveira, Teresina precisa criar suas próprias janelas de exibição. Hoje, segundo ele, a cidade não possui um cinema público permanente dedicado a uma programação cinematográfica diversificada. O Sesc Cajuína possui uma sala e realiza sessões, mas sua programação é específica e não substitui uma política pública permanente de exibição. As outras possibilidades aparecem principalmente por meio de festivais, mostras e iniciativas independentes. O problema é que essas iniciativas também dependem de financiamento.
Em Teresina a gente não tem uma sala de cinema público, e falta a formação pra empresários sobre programação e a diversidade dentro da programação, e sobre lei de cota de telas, que é muito desrespeitada, vários filmes brasileiros que não vem pra cá, e quando vem é um dia em um horário totalmente inacessível.
É justamente nesse ponto que, para ele, a política pública deveria atuar: não apenas financiando a produção, mas criando condições para que os filmes produzidos consigam circular. Não basta apenas produzir, o problema aparece em diferentes etapas. Um filme pode receber financiamento, ser produzido, alcançar festivais e até conquistar reconhecimento internacional. Mas ainda assim pode encontrar dificuldades para chegar às salas comerciais.
Falta política pública para formar os detentores dessas salas também, ter um dialogo institucional ou uma fiscalização pra tentar fazer com que a lei seja cumprida porque a gente percebe que não é, existem várias brechas nessa lei, por isso ela é burlada o tempo inteiro, e também falta outras opções de janelas de exibição, cinema público, investimento em cineclubes.
Ele cita experiências existentes em outras capitais brasileiras, como o Cinema São Luiz, no Recife, o Cinema da Fundação, também em Pernambuco, e equipamentos públicos em Fortaleza e João Pessoa. Esses espaços não eliminam a presença do cinema comercial. Mas criam uma alternativa. Uma sala pública, entretanto, não pode ser apenas uma sala com cadeiras e projetor. O cineasta chama atenção para a experiência cinematográfica. Para competir pela atenção do público, uma sala pública precisa oferecer qualidade de imagem, som, conforto e programação. Uma conversa recente do cineasta com uma espectadora de aproximadamente 50 anos resume esse problema. Ela contou que gosta de ir sozinha ao cinema e mencionou filmes internacionais que estavam em cartaz. Quando o cineasta comentou que gostaria de ter assistido a um filme brasileiro que não havia chegado às salas, ela demonstrou curiosidade. Ela simplesmente não sabia que o filme existia. Depois, ao falar sobre o antigo Cine Rex, lembrou de vários filmes que havia assistido ali e disse que gostaria que o espaço voltasse a funcionar. A conversa revela algo simples: há pessoas interessadas em cinema. O que falta, muitas vezes, é opção. É necessário olharmos também para outro problema: a preservação da própria história audiovisual do estado.
“Cadê a catalogação das obras?”, questiona. Cadê os registros dos filmes produzidos no Piauí nas décadas passadas? Quem foram os realizadores dos anos 1970? Onde estão os acervos?As pesquisas? Os livros? Os registros? A preservação? A ausência de uma política permanente de memória audiovisual significa que, além de ter dificuldade para assistir aos filmes produzidos hoje, o Piauí também corre o risco de não conseguir acessar a própria história cinematográfica. Não basta criar filmes. É preciso garantir que eles circulem, sejam vistos e permaneçam acessíveis.
“Como esse cinema chega ao público?”
Depois da dificuldade para encontrar espaço nas salas comerciais de Teresina, A Fabulosa Máquina do Tempo terá duas sessões na capital piauiense dentro da Parada de cinema de Teresina. A programação acontece no dia 9 de outubro, com uma sessão voltada para escolas, às 15h, e outra aberta ao público geral, às 20h.

As duas sessões terão bate-papo com a participação da produtora Clarice Rios e de duas crianças que integram a produção, Sofia e Lorenna. A iniciativa amplia a possibilidade de encontro entre o filme e o público piauiense, especialmente em uma obra que tem o próprio território e suas memórias como parte fundamental de sua narrativa
Tassia Araújo, cineasta piauiense. responsável pela Clandestina Filmes, e pela Parada de Cinema de Teresina foi entrevistada pelo Piauiensidades, e também identifica uma distância entre a produção audiovisual e o público piauiense.

Mas sua análise acrescenta outro elemento: a formação. Para ela, Teresina avançou com a existência de festivais e mostras, mas parte do público que comparece ainda chega principalmente pelas relações pessoais. As pessoas vão assistir aos filmes de amigos, colegas e conhecidos. Isso significa que ainda existe um público específico e de nicho para o cinema brasileiro, especialmente para curtas-metragens e produções independentes.
Eu acho que nossa produção ainda não amadureceu o suficiente e isso tem como culpada, a falta de fomento, de formação, de um curso, de uma escola de cinema, é nesses locais que as pessoas se conhecem, aprendem a técnica, e além dela, o que é o cinema que não é só técnica, aprendem como linguagem, postura política.

Tassia chama atenção para uma relação que costuma ficar escondida quando se fala de política audiovisual: assistir a filmes também é formação profissional. É assistindo que um realizador aprende a observar roteiro, fotografia, direção, montagem, som, direção de arte, narrativa, cor e diferentes formas de construir uma imagem. Por isso, festivais como a Parada de Cinema não funcionam apenas como lugares de exibição. Eles também são espaços de encontro, formação e circulação de realizadores.
Espaços como a Parada de cinema, como mostra, os festivais, são espaços de encontro e de fomento, assistir filme faz parte de uma formação de um realizador audiovisual. No caso a Parada desse ano, terão oficinas de roteiro, produção independente e oficina de cinema decolonial, uma pesquisadora que pesquisa sobre nego bispo, então essas ações formativas são necessárias pra quem quer fazer cinema.
Segundo Tássia, é nesses ambientes que cineastas conseguem conversar com outros profissionais, estabelecer contatos e construir relações que podem resultar em novos trabalhos. A formação, portanto, não acontece apenas dentro de uma escola de cinema. Ela também acontece quando uma cidade cria condições para que seus habitantes assistam a diferentes filmes.
A cineasta utiliza a dança como comparação. Ela observa que festivais de dança conseguem mobilizar um público numeroso porque existe uma rede de formação anterior: escolas, alunos, professores, famílias e grupos que acompanham aquela linguagem durante todo o ano.
Outra coisa, a dança aqui em Teresina, você vê o junta, um festival de dança contemporânea, o junta lota, muita parte do público são das escolas de dança, isso ajuda a fazer a formação, o público. Uma formação poderia ser o grande centro de uma ampliação do nosso cinema, fora que aqui não tem cinema de rua, o cine rex está abandonado e a obra não saiu do lugar ainda, isso é outro problema gravíssimo.
No cinema, essa estrutura ainda é mais frágil. Não existe uma rede semelhante de escolas de cinema capaz de formar espectadores e realizadores de maneira permanente. E essa ausência se transforma em um círculo difícil de romper: sem público, há menos interesse comercial; sem espaço de exibição, o público não se forma; sem público formado, torna-se mais difícil justificar novas janelas para o cinema brasileiro.
Acho que ainda falta muito interesse do público de assistir filme brasileiro, principalmente curta-metragem, por exemplo, acho que existe um distanciamento muito grande do público piauiense com curta- metragem brasileiro, com cinema brasileiro, até mesmo com os longas, é um público muito específico, um público de nicho. E falta financiamento do estado, existem poucos espaços culturais, eles fecham ao final de semana, como o Museu da Imagem e do Som de Teresina( MIS), então falta interesse tanto do estado, como do município.
A Cota de Tela resolve?
O Brasil possui uma política nacional justamente para tentar equilibrar essa disputa. A chamada Cota de Tela obriga as empresas exibidoras a incluir longas-metragens brasileiros em sua programação. A quantidade de sessões exigida varia de acordo com o porte do grupo exibidor, e a legislação também estabelece regras relacionadas à diversidade de títulos. A Agência Nacional de Cinema (ANCINE) é responsável pelo monitoramento e pela fiscalização do cumprimento da política.
Em 2026, a regulamentação foi aperfeiçoada para incentivar não apenas a presença de filmes brasileiros, mas também sua permanência em cartaz e sua exibição em horários de maior procura. Sessões de obras brasileiras realizadas a partir das 17h recebem um acréscimo na contabilização da cota, e há incentivos específicos para obras premiadas e para sua permanência em semanas posteriores de exibição. A própria ANCINE reconhece uma diferença importante: mesmo quando os filmes brasileiros ocupam determinada parcela das sessões, sua participação no público pode ser inferior à participação na oferta.
Em 2024 e 2025, filmes brasileiros representaram 15,7% das sessões, mas alcançaram 10,1% e 9,9% do público, respectivamente. A questão, portanto, não é simplesmente colocar um filme brasileiro na programação. É garantir que ele tenha condições reais de encontrar seu público.
O cinema brasileiro antes de Hollywood

A disputa pela tela brasileira não começou agora. Desde a década de 1930, o Estado brasileiro cria mecanismos para tentar proteger e estimular a produção nacional. Durante o governo de Getúlio Vargas, o cinema foi incorporado a um projeto político e cultural de construção de identidade nacional, com medidas voltadas à exibição de filmes brasileiros e à utilização do audiovisual como instrumento educativo. A história do cinema brasileiro também é marcada pela forte presença econômica da indústria cinematográfica estadunidense.
O problema não é simplesmente que o público “gosta de Hollywood”. Existe uma estrutura de distribuição, publicidade, investimento e ocupação das salas que historicamente favoreceu os grandes estúdios internacionais. O resultado cultural é conhecido: muitas pessoas reconhecem personagens, cidades e histórias produzidas nos Estados Unidos, mas têm pouco contato com a produção cinematográfica de outros países , e, muitas vezes, com a própria produção brasileira. Cinema indiano, africano, latino-americano, asiático e mesmo diferentes cinematografias brasileiras permanecem distantes das salas comerciais. A questão não é retirar Hollywood das telas. É perguntar por que tantas outras cinematografias encontram tão pouco espaço nelas.
E o Cine Rex?
O Cine Rex ocupa um lugar importante na memória cinematográfica de Teresina. Depois de anos fechado, o espaço entrou novamente no debate público com a promessa de ser transformado em um equipamento de formação e exibição audiovisual.

Em novembro de 2025, o Governo do Estado anunciou que o prédio do Cine Rex seria revitalizado e transformado em uma Escola Estadual de Audiovisual, com a retomada do cinema público no Centro de Teresina. Um mês antes, em setembro, o secretário de Cultura, Rodrigo Amorim, havia afirmado que o projeto estava pronto e que o processo de licitação estava em andamento. Mas, para além da obra física, permanece uma questão fundamental: que cinema será possível dentro do Cine Rex?
Quem fará a curadoria? Com que frequência haverá sessões? Filmes piauienses terão espaço? E o cinema nordestino, os documentários, os curtas-metragens e as produções independentes? Haverá sessões para escolas, debates, cineclubes? Como será pensada a formação de público e a formação audiovisual? Recuperar o prédio é importante. Mas recuperar e construir, uma política de cinema é ainda mais.
Tassia Araújo aponta para a formação de público. Weslley Oliveira, para a distribuição, a ausência de políticas públicas e a falta de novas janelas de exibição. Eliza Capai chama atenção para a desigualdade nas condições de circulação. O próprio percurso de A Fabulosa Máquina do Tempo materializa essa contradição: um filme realizado no Piauí pode chegar à disputa pelo Oscar antes de conseguir uma sala de cinema na capital do estado onde foi filmado.
Talvez a questão, então, não seja descobrir se o Piauí gosta ou não de cinema brasileiro. Talvez seja garantir que o público possa, antes de tudo, escolher. Porque não existe formação de público onde não existe acesso. E não existe pertencimento quando as pessoas não conseguem se reconhecer nas telas.
Guaribas já foi apresentada ao país como a “capital da fome”. Agora, pelas palavras de seus próprios moradores, pode ser também a “capital dos sonhos”. Para que esse sonho não termine quando os créditos sobem, é preciso que existam telas para que essas histórias possam continuar sendo vistas, discutidas e reconhecidas, dentro e fora do Piauí.



