No Piauí, o calor tem nome, calendário e até uma identidade própria. Setembro, outubro, novembro e dezembro formam o conhecido B-R-O Bró, expressão criada para nomear os meses que tradicionalmente marcam a temporada mais quente do ano no estado.
Mas, em 2026, o velho conhecido dos piauienses chega acompanhado de um cenário climático que merece atenção. As temperaturas já estão acima da média registrada no ano passado, e a previsão é de que o El Niño contribua para intensificar ainda mais o calor no Piauí.

Mas, afinal, o que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento modifica a circulação atmosférica e interfere nos padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. No Brasil, os efeitos não são iguais em todas as regiões: historicamente, o fenômeno está associado à redução das chuvas em áreas do Norte e Nordeste e ao aumento das temperaturas nessas regiões.

Para o climatologista Rafael Marques, o El Niño funciona como um intensificador de uma condição que o Piauí já conhece bem. O estado naturalmente apresenta temperaturas elevadas durante o B-R-O Bró por sua posição geográfica e pelas características da circulação atmosférica. Segundo o climatologista, a perda de vegetação nativa no Piauí e em estados vizinhos também contribui para favorecer a presença de ar mais seco e quente.
A combinação desses fatores ajuda a explicar por que o B-R-O Bró de 2026 pode ser mais intenso.
“Estamos com temperaturas na casa dos 38°C, 39°C. E, para os meses de outubro e novembro, facilmente podemos chegar a temperaturas de 41°C, 42°C”, explica Rafael. Segundo ele, além dos termômetros, a sensação de calor também tende a ficar mais intensa.

E de onde vem o “B-R-O Bró”?
O historiador Diego Parente diz que o mistério sobre a origem da nomenclatura piauiense faz parte do charme.
“Já houve muito interesse acadêmico e da imprensa sobre a origem do termo, mas ele nunca foi encontrado”, conta. Para ele, a expressão nasceu de uma necessidade coletiva: “É parte da nossa criatividade e poesia coletiva. Uma maneira que encontramos de nomear uma experiência que vivemos juntos”.

Mas o calor piauiense não começou com o B-R-O Bró. Estudos arqueológicos na Serra da Capivara mostram que, há cerca de 100 mil anos, o Piauí tinha um clima tropical úmido, bem mais ameno. A grande virada climática aconteceu milhares de anos depois, quando o estado passou por uma mudança que o tornou mais quente e seco.
Contudo, Diego pondera que a natureza não pode levar toda a culpa. O crescimento das cidades também pesa nessa conta.
“O crescimento desordenado das cidades piauienses, que desconsidera nossas necessidades climáticas, também contribuiu para o aumento das temperaturas. ”.
O que o poder público está fazendo?
Conviver com o calor extremo exige mais do que beber água e esperar o B-R-O Bró passar. Existe também uma responsabilidade que envolve planejamento, monitoramento e políticas públicas.
Procurada pela equipe do Piauiensidades, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) aponta que desenvolve ações de monitoramento, como a distribuição de mudas, o envio de boletins do Monitor de Secas ao governo e parcerias acadêmicas para estudar a convivência com a estiagem. Atualmente, 117 dos 224 municípios do Piauí estão sob decreto estadual de seca.
O próprio governo reconhece que as temperaturas podem permanecer acima da média histórica em todo o estado e que o aumento do calor tende a elevar a demanda por água, acelerar a evapotranspiração e reduzir a umidade do solo, das pastagens e da vegetação.

E quando o assunto deixa de ser apenas a seca e passa a envolver diretamente a saúde e a vida cotidiana durante ondas de calor, a discussão fica ainda mais complexa.
O Plano Estadual de Adaptação do Setor Saúde do Piauí às Alterações Climáticas 2025-2035, divulgado pelo Governo do Piauí, reconhece que eventos extremos de temperatura atingem toda a população, mas afetam de maneira desproporcional grupos vulnerabilizados, entre eles pessoas de baixa renda, comunidades tradicionais e pessoas em situação de rua. O documento defende uma abordagem baseada em justiça climática, mas não detalha, no trecho analisado, nenhuma ação concretas voltadas especificamente à população em situação de rua diante das ondas de calor.
O termômetro não é democrático
Para quem tem casa, ar-condicionado, ventilador, água disponível, acesso a protetor solar e possibilidade de ficar longe do sol nas horas mais quentes, o B-R-O Bró pode significar desconforto. Para quem vive na rua, trabalha exposto ao sol ou não tem acesso regular à água, o mesmo calor pode significar risco.
Mariana Oliveira, de 28 anos, vive em situação de rua. Ela conta que nunca recebeu ajuda do Estado ou do município para enfrentar esse período.
“A gente vive das águas das praças, quando tem, e água eu pego na igreja mesmo. Nesses tempos quentes, o jeito é tentar banhar mais de uma vez, mas pra mim é bem complicado. Eu banho geralmente na praça muito cedo da manhã ou tarde da noite pra ninguém ver”, relata.

Ela também fala sobre a preocupação com o calor: “Eu fico preocupada, mas o jeito é aguentar.”
Questionada sobre a existência de ações específicas para minimizar os efeitos do calor entre a população em situação de rua, a Secretaria do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (Sasc-PI), por meio do gerente da Proteção Especial, Ananias Cruz, informou que os atendimentos à população em situação de rua são executados principalmente pelos serviços municipais. Segundo ele, a atuação da secretaria estadual está voltada ao acompanhamento e monitoramento das demandas apresentadas pelos municípios.
Na entrevista, não foi apresentada uma ação específica da Sasc-PI voltada à proteção dessa população diante dos efeitos das altas temperaturas.
Como se preparar?
A médica Agda Mesquita recomenda evitar a exposição direta ao sol, principalmente entre 10h e 16h, sempre que isso for possível. Hidratação e uso de protetor solar continuam entre as medidas mais importantes, assim como evitar grandes esforços físicos sob o sol.
“Para quem precisa trabalhar ao ar livre, como garis, agentes comunitários de saúde, vendedores e outros trabalhadores, a recomendação é reforçar a proteção: usar roupas que cubram a pele, optar por roupas com proteção UV quando possível e manter uma ingestão frequente de líquidos”.

A médica também chama atenção para um ponto que costuma ficar escondido quando falamos apenas sobre “calor”: a exposição solar acumulada aumenta riscos à saúde, incluindo o câncer de pele. Além das recomendações, existe ainda uma ferramenta simples que pode ajudar a população a acompanhar situações de risco.
Para receber alertas da Defesa Civil por SMS, basta enviar gratuitamente o CEP da área de interesse para o número 40199. O serviço envia avisos e recomendações quando há possibilidade de ocorrência de eventos adversos.



